A conferência dedicada à mobilidade inteligente e à gestão do espaço público, realizada no âmbito do evento Smart Cities, reuniu alguns dos principais responsáveis institucionais e especialistas do setor para discutir os desafios que as cidades portuguesas enfrentam no presente e nas próximas décadas. Entre os participantes estiveram Carlos Humberto de Carvalho, Gonçalo Reis, Nuno Sousa, Dina Aguiar, Emídio Gomes, José Gomes Mendes e Isabel Barroso de Sousa.
Ao longo do debate ficou clara uma ideia comum: as cidades inteligentes não se constroem apenas com tecnologia, mas sobretudo com uma visão integrada centrada nas pessoas, na qualidade de vida e na eficiência dos sistemas urbanos.
A cidade inteligente como resposta às necessidades das pessoas
Na abertura da discussão, Nuno Sousa destacou que uma cidade inteligente deve ser capaz de gerar “feedback” para os cidadãos e responder de forma dinâmica às suas necessidades. Para o responsável dos TMP, mobilidade e transporte representam, acima de tudo, liberdade.
Segundo afirmou, o objetivo passa por criar cidades mais tecnológicas, mas também mais humanas, onde seja possível trabalhar e viver com maior flexibilidade, garantindo que os sistemas urbanos comunicam eficazmente com quem os utiliza.
A mesma ideia foi reforçada por Dina Aguiar, que alertou para o facto de a tecnologia não poder ser vista como uma solução isolada. Para a administradora da Parques Tejo, a inteligência urbana deve funcionar como um eixo facilitador, articulando três dimensões fundamentais: estacionamento, mobilidade e satisfação do utilizador.
A responsável lembrou ainda que muitas cidades continuam estruturadas com base em modelos urbanos antigos, desenhados para realidades de mobilidade muito diferentes das atuais. Nesse contexto, a gestão e regulação do estacionamento assumem um papel cada vez mais relevante, sobretudo devido aos problemas causados pelo estacionamento indevido e pela pressão sobre o espaço público.
Crescimento da procura exige mais capacidade e integração
Um dos momentos centrais da conferência foi a intervenção de Carlos Humberto de Carvalho, presidente da TML, que sublinhou o forte crescimento da procura por transporte público na Área Metropolitana de Lisboa.
Segundo revelou, atualmente são transportadas cerca de 750 mil pessoas por dia através da Carris Metropolitana, num território que serve uma população próxima dos três milhões de habitantes. O responsável destacou ainda que o sistema não serve apenas os principais eixos urbanos, mas também as periferias, verificando-se um aumento significativo da procura até em horários tradicionalmente menos utilizados, como as linhas das quatro e cinco da manhã.
Carlos Humberto defendeu que muitos dos desafios atuais da mobilidade não podem ser resolvidos apenas pelos operadores rodoviários. Na sua perspetiva, será essencial reforçar os transportes pesados, aumentar corredores BUS, implementar semáforos prioritários e apostar fortemente em dados em tempo real. A curto prazo, a ambição passa por disponibilizar informação em tempo real em todos os sistemas de transporte.
O presidente da TML alertou ainda para um problema estrutural: a ausência de uma visão verdadeiramente integrada entre os diferentes municípios da Área Metropolitana de Lisboa. “Temos 18 poderes locais na AML”, recordou, defendendo uma maior articulação institucional para melhorar a integração entre os sistemas de mobilidade de Lisboa e Porto.
Transporte público, sustentabilidade e ordenamento urbano
Gonçalo Reis, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, reforçou a importância de garantir uma oferta de transporte público organizada e eficiente, capaz de incentivar a transferência do automóvel individual para os modos coletivos.
Nesse sentido, destacou os investimentos em curso na Carris para aumentar a frequência e a capacidade da rede, bem como o desenvolvimento dos parques navegante® em parceria com a TML, que deverão disponibilizar cerca de 1700 lugares de estacionamento em parques indutores associados ao transporte coletivo.
O autarca sublinhou também que a gestão municipal não pode limitar-se apenas aos transportes públicos tradicionais. Outros modos de mobilidade, como os tuk-tuk, exigem igualmente regulamentação e organização para evitar impactos negativos no espaço urbano.
A transição climática foi outro dos temas abordados. Gonçalo Reis referiu o compromisso de Lisboa em atingir, até 2029, uma utilização de 90% de energias limpas nos sistemas de mobilidade.
No entanto, alertou igualmente para os desafios financeiros associados à política de gratuitidade nos transportes públicos. Embora reconheça os benefícios sociais da medida, defendeu que a sustentabilidade económica do sistema é essencial para garantir investimento contínuo e melhoria da qualidade do serviço.
O debate sobre a gratuitidade dos transportes
A questão da gratuitidade dos transportes públicos gerou algumas das posições mais divergentes da conferência.
Nuno Sousa mostrou-se favorável a modelos de gratuitidade universal, defendendo que existe atualmente uma enorme falta de planeamento urbano e de mobilidade.
Já Dina Aguiar apresentou uma visão mais prudente, considerando que o preço do passe não é necessariamente o principal fator de afastamento do transporte público. Na sua opinião, os utilizadores valorizam sobretudo variáveis como comodidade, previsibilidade e fiabilidade do serviço. Acrescentou ainda que existe frequentemente uma tendência para desvalorizar aquilo que é gratuito.
Também José Gomes Mendes criticou fortemente os modelos de gratuitidade generalizada, classificando-os como um potencial obstáculo à melhoria da qualidade do serviço, por reduzirem capacidade de investimento.
A cidade tridimensional e o futuro da mobilidade
Uma das intervenções mais disruptivas foi protagonizada por José Gomes Mendes, que apresentou uma reflexão sobre os novos paradigmas da gestão urbana e da mobilidade.
O responsável destacou que a mobilidade possui simultaneamente externalidades positivas — ao aproximar pessoas e atividades — e negativas, devido à pressão que gera sobre o espaço urbano.
Numa visão prospetiva, defendeu que o futuro poderá passar pela utilização do espaço aéreo urbano como nova camada de mobilidade. Segundo afirmou, a gestão dos fluxos urbanos tenderá a evoluir para um modelo tridimensional, com diferentes níveis de utilização aérea destinados a emergência médica, vigilância e proteção de infraestruturas, bem como sistemas de delivery autónomo.
José Gomes Mendes considerou que esta “cidade tridimensional” poderá tornar-se realidade nas próximas décadas, permitindo expandir a mobilidade sem aumentar a pressão sobre o solo urbano.
Habitação e reabilitação urbana também entram na equação
A conferência abordou igualmente a relação entre mobilidade, habitação e desenvolvimento urbano.
Isabel Barroso de Sousa destacou a dimensão do problema habitacional e a necessidade de colocar no mercado o maior número possível de imóveis reabilitados. Referiu ainda a promulgação da Lei 9/2026, que introduz novas medidas destinadas ao arrendamento e à dinamização da oferta habitacional.
A intervenção reforçou a ideia de que os desafios das cidades inteligentes não podem ser analisados de forma isolada. Mobilidade, habitação, planeamento urbano, sustentabilidade e tecnologia fazem parte de um mesmo ecossistema urbano que exige políticas integradas e coordenação institucional.
Uma visão integrada para as cidades do futuro
Apesar das diferentes perspetivas apresentadas ao longo do debate, houve um consenso claro entre os intervenientes: o futuro das cidades dependerá da capacidade de integrar tecnologia, mobilidade, sustentabilidade e gestão do espaço público numa visão comum.
Mais do que cidades tecnologicamente avançadas, os participantes defenderam cidades capazes de responder às necessidades reais das pessoas, promovendo qualidade de vida, inclusão e eficiência.
A conferência demonstrou que Portugal está já a discutir muitos dos grandes desafios urbanos do futuro, desde a inteligência artificial aplicada à mobilidade até à reorganização do espaço público, mas também evidenciou que o sucesso dessas transformações dependerá da articulação entre instituições, operadores e cidadãos.
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