A sede da Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML) recebeu, no dia 29 de outubro, a apresentação dos três casos de uso desenvolvidos em Lisboa no âmbito do projeto europeu DeployEMDS. As soluções demonstram como a partilha e a interoperabilidade de dados podem contribuir para melhorar o planeamento da mobilidade, tornar os transportes públicos mais atrativos e promover deslocações mais acessíveis e sustentáveis.
O que podem os dados fazer pela mobilidade? Foi a partir desta questão que a TML e a EMEL apresentaram os resultados de três projetos desenvolvidos em Lisboa no âmbito do DeployEMDS, uma iniciativa europeia que promove a criação de um espaço comum de dados para a mobilidade, facilitando o acesso, a partilha e a interoperabilidade da informação, sem comprometer a soberania dos dados.
Na sessão de abertura, Carlos Humberto de Carvalho, presidente da TML, destacou o espírito de cooperação entre as duas entidades e a importância de desenvolver projetos partilhados, construídos a várias mãos. A partilha de dados permite criar soluções com aplicação prática, desde o planeamento de percursos com menos interrupções à identificação de oportunidades para tornar os transportes públicos mais atrativos.
O presidente da TML sublinhou, contudo, que o verdadeiro desafio está na concretização destas soluções, reforçando a importância de continuar a trabalhar em conjunto para transformar os projetos em resultados. Neste contexto, destacou também o trabalho que a TML tem vindo a desenvolver através da plataforma GO, apresentando as suas principais funcionalidades.
Também Carlos Silva, presidente da EMEL, salientou que a partilha de dados é uma condição essencial para melhorar a mobilidade. A EMEL dispõe de cerca de 300 fontes de dados sobre a cidade de Lisboa, cujo potencial depende da capacidade de as articular e colocar ao serviço de melhores decisões.
Defendeu ainda a importância de trabalhar com informação fundamentada e fontes identificáveis, evitando a utilização de indicadores cuja origem não é conhecida ou verificável. A mobilidade, afirmou, deve ser simples, segura, sustentável e partilhada, exigindo soluções que tornem as alternativas ao transporte individual cada vez mais acessíveis e atrativas.
Três casos de uso para responder a desafios concretos da mobilidade
A Sofia Taborda, diretora de Inovação e Soluções de Mobilidade da EMEL, coube a apresentação do DeployEMDS e do enquadramento dos três casos de uso desenvolvidos em Lisboa.
Com uma duração de três anos, o projeto reúne 45 parceiros europeus, envolve nove cidades e integra 16 casos de uso. Em Lisboa, foram desenvolvidas três soluções, duas pela EMEL e uma pela TML, que abrangem diferentes dimensões da mobilidade urbana e metropolitana.
O projeto procura facilitar o acesso aos dados, assegurar a sua soberania e promover a interoperabilidade entre sistemas e entidades. O objetivo é criar condições para que a informação possa ser partilhada e utilizada de forma mais eficiente, contribuindo para uma visão integrada da mobilidade.
TML desenvolve ferramenta para identificar pontos críticos na rede da Carris Metropolitana
O caso de uso desenvolvido pela TML centra-se na identificação e análise dos pontos críticos da rede da Carris Metropolitana, permitindo perceber onde ocorrem perturbações que condicionam a velocidade e a eficiência da operação.
A apresentação esteve a cargo de Bernardo Alves, do Departamento de Estudos e Planeamento (DEP), Antero Fernandes, do departamento de Inteligent Transport Systems (ITS), e Lara Nunes do departamento de Gestão Operacional (DGO), que deram a conhecer os objetivos, a metodologia e as funcionalidades da solução.
Partindo da análise da experiência dos passageiros, Bernardo Alves destacou que, apesar de o índice global de satisfação com o serviço se situar nos 7,3 valores, aspetos como a pontualidade, a regularidade e a rapidez continuam a representar oportunidades de melhoria.
Com uma operação em crescimento, a Carris Metropolitana enfrenta o desafio de melhorar a eficiência e a velocidade comercial dos serviços. Para isso, é fundamental identificar onde se verificam as maiores perturbações e quais os locais em que a intervenção poderá produzir melhores resultados.
A ferramenta desenvolvida permite visualizar e analisar os níveis de perturbação na rede, apoiando a identificação de prioridades e a tomada de decisão por parte das entidades responsáveis pela gestão da mobilidade e do espaço público.
Entre as medidas que poderão beneficiar desta informação encontram-se o ajustamento de horários, a implementação de corredores BUS, a melhoria da semaforização, o reforço da fiscalização e a alteração do desenho do espaço público.
Durante a sessão, foram também demonstradas as componentes de back-end e front-end da ferramenta, evidenciando a forma como os dados são tratados e disponibilizados para consulta e análise.
Como próximos passos, Bernardo Alves destacou a importância de passar à utilização efetiva dos dados. O acesso à ferramenta será disponibilizado através de um endereço público, com ligação a partir do site da TML, podendo as credenciais de acesso ser solicitadas à empresa.
EMEL apresenta soluções para uma mobilidade urbana mais acessível e sustentável
Os dois casos de uso desenvolvidos pela EMEL abordam desafios complementares da mobilidade na cidade de Lisboa.
Maria Zuzarte, analista de mercado da EMEL, apresentou a solução «Incentivar deslocações pendulares mais sustentáveis em Lisboa», orientada para o contexto empresarial. O projeto procura desenvolver uma oferta integrada de serviços de mobilidade para empresas, disponibilizando um ponto de acesso único, uma gestão organizada e diferentes modalidades de pagamento.
A solução pretende facilitar a gestão das deslocações dos trabalhadores e incentivar a utilização de alternativas mais sustentáveis ao automóvel individual, contribuindo para uma mobilidade empresarial mais eficiente.
Por sua vez, Hugo Costa, gestor de projeto da EMEL, apresentou o caso de uso «Planeamento de percursos sem interrupções», especialmente dirigido a pessoas com mobilidade condicionada.
O projeto parte do reconhecimento de que a informação atualmente disponível nem sempre é suficiente para que estas pessoas consigam planear as suas deslocações com confiança e autonomia. A ausência de informação georreferenciada sobre equipamentos e obstáculos, como elevadores, escadas rolantes, lojas e outros serviços, pode dificultar o acesso e a utilização da rede de mobilidade.
A solução procura melhorar a disponibilização e a partilha desta informação, apoiar o planeamento de percursos acessíveis e contribuir para decisões mais informadas. Entre os trabalhos desenvolvidos encontra-se também a caracterização e o mapeamento dos semáforos da cidade de Lisboa.
A partilha de dados como ponto de partida para novas soluções
A sessão terminou com um momento de perguntas e respostas, durante o qual foram abordadas as possibilidades de integração entre as soluções apresentadas e outras plataformas de mobilidade.
Entre os temas discutidos esteve a eventual integração do navegante Empresas na aplicação da EMEL, tendo sido referido que as duas entidades já reuniram para explorar essa possibilidade, embora o trabalho de desenvolvimento e articulação ainda esteja em curso.
Foi igualmente abordada a possibilidade de disponibilizar informação das ferramentas da TML através do NAV, tendo sido esclarecido que os dados abertos poderão ser integrados diretamente, enquanto o acesso a outros dados deverá ser solicitado às entidades responsáveis. A TML manifestou disponibilidade para disponibilizar a informação produzida através de diferentes interfaces de acesso público.
Foi ainda salientado que a partilha de dados não termina com o encerramento do projeto europeu, previsto para fevereiro de 2027. O portal EMDS continuará a permitir o processo de adesão de novas entidades e a disponibilização de dados.
No encerramento, Luísa Ferreira, administradora da TML, destacou o balanço positivo do trabalho desenvolvido e considerou esta iniciativa um primeiro passo para continuar a evoluir os projetos e alargar o seu âmbito de aplicação.
O objetivo, sublinhou, é avançar para soluções concretas, sustentáveis e com aplicação real, promovendo a normalização dos dados e a sua partilha, de forma a construir uma visão comum da mobilidade.
O DeployEMDS demonstra, assim, como a colaboração entre entidades e a utilização inteligente dos dados podem contribuir para uma mobilidade mais integrada, acessível e eficiente, aproximando a informação das decisões e das necessidades reais de quem se desloca.