Como podem os dados e os gémeos digitais contribuir para melhorar o planeamento e a gestão da mobilidade urbana?
Foi a partir desta pergunta que, no dia 25 de setembro, representantes de cidades, investigadores, profissionais e especialistas se reuniram na NOVA IMS para a conferência Mobility & Digital Twins: Enabling the data-driven City of Tomorrow. A iniciativa, organizada pela NOVA Cidade - Urban Analytics Lab, POLIS e TML - Transportes Metropolitanos de Lisboa, colocou no centro do debate o papel dos dados, da Inteligência Artificial e dos Digital Twins na construção de cidades mais informadas e capazes de responder aos desafios da mobilidade.
Para a TML, a participação neste debate foi também uma oportunidade para partilhar uma experiência concreta: a construção, na Área Metropolitana de Lisboa, de uma visão integrada da mobilidade e da infraestrutura tecnológica que a suporta.
Uma visão metropolitana para uma mobilidade que não conhece fronteiras
A Área Metropolitana de Lisboa reúne 18 municípios e cerca de 3,3 milhões de pessoas. É um território onde as deslocações diárias atravessam fronteiras administrativas: as pessoas vivem num município, trabalham noutro, estudam noutro e utilizam serviços em diferentes pontos da região.
Foi precisamente esta realidade que esteve na origem da TML e do trabalho desenvolvido nos últimos anos: passar de uma lógica fragmentada para uma visão metropolitana da mobilidade.
Como destacou Pedro Pinto de Jesus, Administrador da TML, na sua intervenção na conferência, esta transformação começou pelo passageiro. O navegante criou um sistema tarifário intermodal comum e mais simples. A Carris Metropolitana veio, por sua vez, estruturar a operação rodoviária numa única rede e numa única marca, integrando diferentes operadores e o serviço de 15 municípios.
Mas a integração da mobilidade não termina na oferta ou na bilhética.
Se queremos oferecer ao passageiro uma única rede, também precisamos de construir uma visão comum do sistema.
É neste ponto que a tecnologia e os dados assumem um papel determinante.
Dos dados à capacidade de decidir
A TML gere hoje o sistema de bilhética navegante e uma infraestrutura tecnológica que permite integrar informação proveniente de diferentes entidades e modos de transporte.
Na operação da Carris Metropolitana, a TML desenvolveu o GO, uma plataforma própria para apoiar o planeamento, a gestão e a monitorização do serviço, entretanto alargada aos operadores e municípios. Esta infraestrutura integra informação operacional e permite processar mais de seis milhões de posições GPS por dia, criando uma base de informação que suporta a disponibilização de informação em tempo real e a tomada de decisão.
Foi também esta experiência que Alexandre Domingues, Diretor de Sistemas e Tecnologias de Informação da TML, levou ao debate.
Mais do que a quantidade de dados, a discussão centrou-se numa questão essencial: como garantir que os dados são suficientemente consistentes, interoperáveis e fiáveis para apoiar decisões?
Porque a tecnologia pode acelerar processos, identificar padrões, testar cenários e apoiar previsões. Mas a sua utilidade depende da qualidade da informação sobre a qual trabalha.
Antes do Digital Twin, é preciso integrar
Este foi um dos principais pontos sublinhados pela TML ao longo da conferência.
Um Digital Twin pode permitir representar e compreender melhor o funcionamento de um território, simular diferentes cenários e avaliar os seus potenciais impactos. Pode tornar-se uma ferramenta importante para apoiar o planeamento urbano, a gestão da mobilidade e a resposta a situações complexas.
Mas, para que isso aconteça, é necessário construir primeiro a infraestrutura que lhe dá sentido.
Primeiro é preciso integrar o sistema. Depois, integrar os dados. Só então podemos transformar esses dados em instrumentos avançados de decisão.
Esta abordagem ganha particular relevância num contexto metropolitano, onde a informação está distribuída por diferentes municípios, autoridades, operadores e sistemas.
A experiência da TML mostra que a transformação digital da mobilidade não se faz apenas através da adoção de novas tecnologias. Faz-se através da capacidade de ligar sistemas, pessoas, entidades e informação.
Inteligência Artificial: acelerar, sem substituir a decisão
A Inteligência Artificial foi também um dos temas presentes no debate.
Para a TML, a IA pode desempenhar um papel relevante na análise de grandes volumes de informação, na identificação de padrões, na previsão da procura ou no apoio à gestão da operação. Pode também acelerar o desenvolvimento de ferramentas e modelos capazes de transformar dados em informação útil para a decisão.
Mas existe uma condição essencial: a tecnologia deve estar ao serviço de objetivos concretos e assentar em dados de qualidade.
A questão não é apenas saber o que a Inteligência Artificial consegue fazer. É saber que decisões queremos melhorar e que informação precisamos para as tomar.
É uma abordagem particularmente importante na mobilidade, onde diferentes decisões têm impacto direto na experiência diária de milhões de pessoas.
Do sistema à viagem
A discussão sobre Digital Twins, dados e Inteligência Artificial pode parecer, à primeira vista, distante da experiência quotidiana de quem utiliza os transportes públicos.
Na realidade, é precisamente aí que a tecnologia deve chegar.
Quando um passageiro consulta uma hora de chegada, planeia uma viagem, escolhe entre diferentes modos de transporte ou recebe informação sobre uma alteração de serviço, está a beneficiar de uma cadeia tecnológica que começa muito antes da aplicação ou do ecrã.
Por isso, a visão da TML é simples: a tecnologia deve ajudar a transformar a complexidade do sistema numa experiência mais simples para quem viaja.
Porque, para o passageiro, não existem diferentes instituições ou operadores. Existe uma viagem.
E é essa viagem que a integração dos sistemas, a qualidade dos dados e as novas ferramentas digitais devem ajudar a tornar cada vez mais simples, informada e acessível.
Um debate que continuou com várias outras sessões e eventos paralelos
A conferência Mobility & Digital Twins integrou ainda sessões temáticas, debates e apresentações de projetos e casos de utilização, abordando temas como os dados de mobilidade, a adaptação aos riscos climáticos e a logística com emissões zero.
O encontro decorreu em paralelo com o Hack the City: Mobility Challenge, realizado entre 23 e 25 de setembro, no qual equipas multidisciplinares trabalharam sobre desafios reais de mobilidade urbana, recorrendo a dados, Inteligência Artificial e tecnologias emergentes. No último dia, as soluções finalistas foram apresentadas aos participantes da conferência e ao júri.
Para a TML, a participação neste encontro representa mais um passo na construção de uma visão metropolitana assente na integração, na inovação e na utilização responsável dos dados.
Porque a cidade do futuro não será apenas uma cidade com mais tecnologia.
Será uma cidade capaz de transformar melhor a informação que já produz em conhecimento, conhecimento em decisão e decisão em melhor mobilidade para as pessoas.