Durante o mês de maio, as instalações da Transportes Metropolitanos de Lisboa receberam mais uma edição da “Mobilidade Mais Talks”, iniciativa promovida pela revista Eurotransporte dedicada à reflexão sobre os desafios da mobilidade e do transporte público em Portugal.
Nesta sessão, o convidado foi Carlos Humberto Carvalho, numa conversa moderada por Sandra Lameiras, marcada por uma reflexão profunda sobre integração tarifária, crescimento da procura, digitalização, sustentabilidade e o futuro das áreas metropolitanas.
Logo no início da conversa, Carlos Humberto Carvalho deixou uma ideia estruturante sobre a evolução dos sistemas de mobilidade:
“Chegamos aqui com muitos momentos de inovação. O novo substitui o velho mas não nasce do nada. Nasce do conhecimento anterior.”
Numa reflexão sobre cidades inteligentes e planeamento urbano, destacou ainda que a tecnologia só faz sentido quando coloca as pessoas no centro:
“Em todas as épocas da história houve cidades inteligentes. O mais importante é que tenham em consideração o ser humano.”
O navegante® e a democratização do acesso ao transporte
Um dos momentos centrais da conversa foi a transformação provocada pela integração tarifária e pelo passe navegante®.
Carlos Humberto Carvalho recordou que, antes da implementação do novo modelo tarifário, uma parte muito significativa da população da Área Metropolitana de Lisboa não utilizava regularmente transporte público por razões económicas.
“O navegante® democratizou o acesso ao transporte público.”
A medida ampliou não apenas o acesso à mobilidade, mas também o acesso a outros direitos fundamentais, num momento em que muitas famílias ganharam maior disponibilidade financeira. Ao mesmo tempo, alertou para os novos padrões de procura:
- crescimento da utilização fora das horas de ponta tradicionais;
- maior pressão nas deslocações suburbanas;
- impacto da crise da habitação na mobilidade metropolitana.
“Temos mais turistas em Lisboa, as famílias deixam de conseguir viver em Lisboa. Isso cria problemas para a sociedade também em termos de transporte.”
Mais integração, mais informação e melhor articulação
Ao longo da sessão, ficou clara a ideia de que a integração tarifária foi apenas o primeiro passo.
“Demorámos muito tempo a perceber que a integração tarifária era essencial.”
Para o presidente da TML, a próxima fase passa pela integração operacional e informativa:
“A integração não deve ser só através da bilhética, mas também da informação de horários e de articulação.”
Nesse sentido, anunciou que no início de junho será disponibilizada informação em tempo real sobre o transporte público metropolitano.
A digitalização foi outro dos temas fortes da conversa. Carlos Humberto Carvalho explicou que a TML evoluiu rapidamente para uma dimensão tecnológica e de inovação:
“A TML foi construída como uma empresa de transporte e mobilidade mas hoje é uma empresa tecnológica e de inovação.”
Atualmente, a empresa já utiliza algoritmos de previsão baseados em padrões de utilização e inferência de procura para melhorar o planeamento operacional.
Crescimento da procura e necessidade de mais capacidade
A sessão ficou também marcada pela referência aos novos recordes da Carris Metropolitana.
“Na semana passada, quarta-feira, foi o dia em que transportámos mais gente desde sempre: 785 mil passageiros.”
Apesar do crescimento, Carlos Humberto Carvalho deixou um alerta claro: os autocarros, por si só, não conseguem responder à totalidade da procura metropolitana.
“Os comboios e os barcos são essenciais. Os autocarros não são suficientes para a procura.”
Defendeu ainda a necessidade de investir mais em corredores dedicados ao transporte coletivo e em sistemas inteligentes de semaforização:
“Temos autocarros de cinco em cinco minutos que ficam parados no trânsito.”
Sustentabilidade financeira e próxima geração de contratos
Outro dos grandes temas abordados foi a sustentabilidade do sistema de transporte público.
Carlos Humberto Carvalho defendeu a manutenção da integração tarifária e da acessibilidade social, mas alertou para os riscos de modelos de gratuitidade sem compensação financeira adequada.
“Precisamos de garantir a manutenção do valor do passe e, ao mesmo tempo, mais transporte.”
Sobre a Carris Metropolitana, reconheceu os enormes desafios associados ao arranque da operação:
- escassez de motoristas;
- aumento dos custos laborais;
- subida do preço dos combustíveis;
- necessidade de maior flexibilidade contratual.
Segundo explicou, a segunda geração de contratos metropolitanos exigirá:
- maior capacidade de fiscalização;
- melhor informação ao público;
- automatização de mecanismos de ajustamento de custos;
- reforço da monitorização operacional.
“Chegámos à conclusão de que a fiscalização tem de ser nossa.”
Inclusão, interfaces e visão de futuro
A digitalização trouxe também novos desafios sociais. O presidente da TML reconheceu dificuldades dos operadores em garantir informação acessível para todos os públicos, especialmente para os mais idosos.
Defendeu ainda modelos mais integrados de atendimento ao público, incluindo lojas únicas de mobilidade.
Outro dos grandes desafios identificados foi a pressão sobre os interfaces metropolitanos, com destaque para:
- Gare do Oriente;
- Algés;
- Setúbal.
A TML está atualmente a trabalhar com a Infraestruturas de Portugal na gestão do terminal rodoviário da Gare do Oriente.
No encerramento, Carlos Humberto Carvalho deixou uma reflexão mais ampla sobre o futuro da sociedade, da mobilidade e da democracia:
“Temos de construir um modelo de sociedade.”
E concluiu com uma mensagem fortemente humanista:
“As pessoas têm de estar sempre em primeiro lugar.”
O produto navegante® Empresas recebeu o prémio Portugal Smart Cities – António Almeida Henriques na categoria Neutralidade Carbónica e Transição Energética.
Atribuídos anualmente, os Prémios Portugal Smart Cities – António Almeida Henriques têm como objetivo distinguir e premiar os projetos de ecossistemas de inovação e implementação de práticas inteligentes, projetos sustentáveis, eficientes e soluções de inteligência urbana, integrados em seis diferentes categorias.
Na edição de 2026 do Portugal Smart Cities Summit, registaram-se mais de uma centena de candidaturas a estes prémios e o navegante® Empresas foi um dos distinguidos, tendo sido ainda um dos cinco nomeados nas categorias “Mobilidade Sustentável e Inteligente” e “Inclusão Social, Inovação Social e Comunidades Inteligentes”.
Carlos Humberto de Carvalho, presidente da TML – Transportes Metropolitanos de Lisboa, recebeu o prémio, entregue por Miguel de Castro Neto, Presidente do Júri e Diretor da Nova Information Managment School, reforçando que este é mais um produto da TML orientado para cumprir o desígnio da empresa: “servir as pessoas”.
A conferência dedicada à mobilidade inteligente e à gestão do espaço público, realizada no âmbito do evento Smart Cities, reuniu alguns dos principais responsáveis institucionais e especialistas do setor para discutir os desafios que as cidades portuguesas enfrentam no presente e nas próximas décadas. Entre os participantes estiveram Carlos Humberto de Carvalho, Gonçalo Reis, Nuno Sousa, Dina Aguiar, Emídio Gomes, José Gomes Mendes e Isabel Barroso de Sousa.
Ao longo do debate ficou clara uma ideia comum: as cidades inteligentes não se constroem apenas com tecnologia, mas sobretudo com uma visão integrada centrada nas pessoas, na qualidade de vida e na eficiência dos sistemas urbanos.
A cidade inteligente como resposta às necessidades das pessoas
Na abertura da discussão, Nuno Sousa destacou que uma cidade inteligente deve ser capaz de gerar “feedback” para os cidadãos e responder de forma dinâmica às suas necessidades. Para o responsável dos TMP, mobilidade e transporte representam, acima de tudo, liberdade.
Segundo afirmou, o objetivo passa por criar cidades mais tecnológicas, mas também mais humanas, onde seja possível trabalhar e viver com maior flexibilidade, garantindo que os sistemas urbanos comunicam eficazmente com quem os utiliza.
A mesma ideia foi reforçada por Dina Aguiar, que alertou para o facto de a tecnologia não poder ser vista como uma solução isolada. Para a administradora da Parques Tejo, a inteligência urbana deve funcionar como um eixo facilitador, articulando três dimensões fundamentais: estacionamento, mobilidade e satisfação do utilizador.
A responsável lembrou ainda que muitas cidades continuam estruturadas com base em modelos urbanos antigos, desenhados para realidades de mobilidade muito diferentes das atuais. Nesse contexto, a gestão e regulação do estacionamento assumem um papel cada vez mais relevante, sobretudo devido aos problemas causados pelo estacionamento indevido e pela pressão sobre o espaço público.
Crescimento da procura exige mais capacidade e integração
Um dos momentos centrais da conferência foi a intervenção de Carlos Humberto de Carvalho, presidente da TML, que sublinhou o forte crescimento da procura por transporte público na Área Metropolitana de Lisboa.
Segundo revelou, atualmente são transportadas cerca de 750 mil pessoas por dia através da Carris Metropolitana, num território que serve uma população próxima dos três milhões de habitantes. O responsável destacou ainda que o sistema não serve apenas os principais eixos urbanos, mas também as periferias, verificando-se um aumento significativo da procura até em horários tradicionalmente menos utilizados, como as linhas das quatro e cinco da manhã.
Carlos Humberto defendeu que muitos dos desafios atuais da mobilidade não podem ser resolvidos apenas pelos operadores rodoviários. Na sua perspetiva, será essencial reforçar os transportes pesados, aumentar corredores BUS, implementar semáforos prioritários e apostar fortemente em dados em tempo real. A curto prazo, a ambição passa por disponibilizar informação em tempo real em todos os sistemas de transporte.
O presidente da TML alertou ainda para um problema estrutural: a ausência de uma visão verdadeiramente integrada entre os diferentes municípios da Área Metropolitana de Lisboa. “Temos 18 poderes locais na AML”, recordou, defendendo uma maior articulação institucional para melhorar a integração entre os sistemas de mobilidade de Lisboa e Porto.
Transporte público, sustentabilidade e ordenamento urbano
Gonçalo Reis, vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, reforçou a importância de garantir uma oferta de transporte público organizada e eficiente, capaz de incentivar a transferência do automóvel individual para os modos coletivos.
Nesse sentido, destacou os investimentos em curso na Carris para aumentar a frequência e a capacidade da rede, bem como o desenvolvimento dos parques navegante® em parceria com a TML, que deverão disponibilizar cerca de 1700 lugares de estacionamento em parques indutores associados ao transporte coletivo.
O autarca sublinhou também que a gestão municipal não pode limitar-se apenas aos transportes públicos tradicionais. Outros modos de mobilidade, como os tuk-tuk, exigem igualmente regulamentação e organização para evitar impactos negativos no espaço urbano.
A transição climática foi outro dos temas abordados. Gonçalo Reis referiu o compromisso de Lisboa em atingir, até 2029, uma utilização de 90% de energias limpas nos sistemas de mobilidade.
No entanto, alertou igualmente para os desafios financeiros associados à política de gratuitidade nos transportes públicos. Embora reconheça os benefícios sociais da medida, defendeu que a sustentabilidade económica do sistema é essencial para garantir investimento contínuo e melhoria da qualidade do serviço.
O debate sobre a gratuitidade dos transportes
A questão da gratuitidade dos transportes públicos gerou algumas das posições mais divergentes da conferência.
Nuno Sousa mostrou-se favorável a modelos de gratuitidade universal, defendendo que existe atualmente uma enorme falta de planeamento urbano e de mobilidade.
Já Dina Aguiar apresentou uma visão mais prudente, considerando que o preço do passe não é necessariamente o principal fator de afastamento do transporte público. Na sua opinião, os utilizadores valorizam sobretudo variáveis como comodidade, previsibilidade e fiabilidade do serviço. Acrescentou ainda que existe frequentemente uma tendência para desvalorizar aquilo que é gratuito.
Também José Gomes Mendes criticou fortemente os modelos de gratuitidade generalizada, classificando-os como um potencial obstáculo à melhoria da qualidade do serviço, por reduzirem capacidade de investimento.
A cidade tridimensional e o futuro da mobilidade
Uma das intervenções mais disruptivas foi protagonizada por José Gomes Mendes, que apresentou uma reflexão sobre os novos paradigmas da gestão urbana e da mobilidade.
O responsável destacou que a mobilidade possui simultaneamente externalidades positivas — ao aproximar pessoas e atividades — e negativas, devido à pressão que gera sobre o espaço urbano.
Numa visão prospetiva, defendeu que o futuro poderá passar pela utilização do espaço aéreo urbano como nova camada de mobilidade. Segundo afirmou, a gestão dos fluxos urbanos tenderá a evoluir para um modelo tridimensional, com diferentes níveis de utilização aérea destinados a emergência médica, vigilância e proteção de infraestruturas, bem como sistemas de delivery autónomo.
José Gomes Mendes considerou que esta “cidade tridimensional” poderá tornar-se realidade nas próximas décadas, permitindo expandir a mobilidade sem aumentar a pressão sobre o solo urbano.
Habitação e reabilitação urbana também entram na equação
A conferência abordou igualmente a relação entre mobilidade, habitação e desenvolvimento urbano.
Isabel Barroso de Sousa destacou a dimensão do problema habitacional e a necessidade de colocar no mercado o maior número possível de imóveis reabilitados. Referiu ainda a promulgação da Lei 9/2026, que introduz novas medidas destinadas ao arrendamento e à dinamização da oferta habitacional.
A intervenção reforçou a ideia de que os desafios das cidades inteligentes não podem ser analisados de forma isolada. Mobilidade, habitação, planeamento urbano, sustentabilidade e tecnologia fazem parte de um mesmo ecossistema urbano que exige políticas integradas e coordenação institucional.
Uma visão integrada para as cidades do futuro
Apesar das diferentes perspetivas apresentadas ao longo do debate, houve um consenso claro entre os intervenientes: o futuro das cidades dependerá da capacidade de integrar tecnologia, mobilidade, sustentabilidade e gestão do espaço público numa visão comum.
Mais do que cidades tecnologicamente avançadas, os participantes defenderam cidades capazes de responder às necessidades reais das pessoas, promovendo qualidade de vida, inclusão e eficiência.
A conferência demonstrou que Portugal está já a discutir muitos dos grandes desafios urbanos do futuro, desde a inteligência artificial aplicada à mobilidade até à reorganização do espaço público, mas também evidenciou que o sucesso dessas transformações dependerá da articulação entre instituições, operadores e cidadãos.